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São Paulo anuncia primeira usina de carbono negativo do Brasil

16 Jun

O Estado de São Paulo deu um passo histórico rumo à descarbonização da matriz energética e ao fortalecimento da sustentabilidade no agronegócio brasileiro. O governo paulista anunciou a criação da primeira usina do país dedicada à captura e armazenamento de carbono proveniente da produção de etanol de cana-de-açúcar, iniciativa que pode posicionar o Brasil entre os líderes globais em tecnologias de redução de emissões de gases de efeito estufa.

O anúncio foi realizado pelo governador Tarcísio de Freitas durante as celebrações da Semana do Meio Ambiente, marcando oficialmente a criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio). O projeto reúne importantes instituições de pesquisa, órgãos públicos e representantes do setor produtivo em torno de uma missão ambiciosa: transformar o etanol de cana em um combustível capaz de retirar mais carbono da atmosfera do que emitir.

Com investimento estimado em R$ 30 milhões e duração prevista de cinco anos, a iniciativa representa uma das maiores apostas do setor sucroenergético brasileiro em inovação, sustentabilidade e geração de valor ambiental.

Tecnologia BECCS pode revolucionar o etanol brasileiro

O projeto será baseado na tecnologia conhecida internacionalmente como BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage), considerada uma das principais ferramentas para atingir metas globais de neutralidade climática.

Na prática, o sistema consiste em capturar o dióxido de carbono (CO₂) liberado durante a produção do etanol, impedindo que ele seja lançado na atmosfera. Posteriormente, esse carbono é comprimido e armazenado em formações geológicas profundas, onde permanece isolado por milhares de anos.

Como a cana-de-açúcar absorve CO₂ durante seu crescimento por meio da fotossíntese, a captura e o armazenamento do carbono gerado no processo industrial criam um balanço ambiental extremamente positivo.

Especialistas apontam que essa tecnologia pode transformar o etanol paulista em um combustível "carbono negativo", condição em que o sistema remove mais carbono da atmosfera do que emite ao longo de sua cadeia produtiva.

Para um estado que já lidera a produção nacional de etanol e açúcar, o avanço pode representar uma vantagem competitiva significativa nos mercados internacionais cada vez mais exigentes em relação às emissões de carbono.

São Paulo concentra condições ideais para o desenvolvimento da tecnologia

Responsável por aproximadamente metade da produção nacional de etanol de cana, São Paulo reúne condições estratégicas para a implementação do projeto.

Além da forte presença do setor sucroenergético, o estado possui ampla infraestrutura logística, capacidade técnica instalada e instituições de pesquisa reconhecidas internacionalmente.

O CTCCSBio será sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e contará com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A iniciativa também envolve a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a Petrobras e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados.

O trabalho será multidisciplinar, reunindo profissionais das áreas de engenharia, geologia, economia, direito e ciências sociais para analisar todos os aspectos necessários à implementação da tecnologia em larga escala.

Mercado de carbono será fundamental para viabilizar o projeto

Embora a tecnologia de captura e armazenamento de carbono já esteja disponível e seja utilizada em diferentes países, um dos principais desafios será garantir sua viabilidade econômica.

Segundo os responsáveis pelo projeto, armazenar carbono não gera receita direta para as empresas. Por isso, uma das principais linhas de pesquisa do centro será estudar mecanismos que permitam monetizar os benefícios ambientais gerados pela tecnologia.

Entre as alternativas avaliadas estão a comercialização de créditos de carbono, programas de compensação ambiental e incentivos governamentais voltados para a redução das emissões.

A regulamentação do mercado de carbono no Brasil surge como um dos fatores que podem impulsionar esse modelo de negócio nos próximos anos. A possibilidade de converter a redução de emissões em ativos financeiros poderá tornar a adoção da tecnologia mais atrativa para as usinas sucroenergéticas.

Além dos ganhos econômicos, especialistas destacam que a captura de carbono pode agregar valor ao etanol brasileiro, ampliando sua competitividade em mercados internacionais que exigem certificações ambientais rigorosas.

Escolha do local dependerá de estudos geológicos detalhados

Um dos pontos centrais do projeto será a identificação dos locais mais adequados para a instalação da usina e para o armazenamento seguro do CO₂ capturado.

Os pesquisadores irão mapear formações geológicas profundas conhecidas como reservatórios salinos. Essas estruturas são compostas por rochas porosas preenchidas por água altamente salina e localizadas a mais de mil metros de profundidade.

Por não possuírem utilidade para o abastecimento humano, esses reservatórios são considerados ambientes seguros para o armazenamento permanente do carbono.

A proximidade entre as usinas produtoras de etanol e os locais de armazenamento também será um fator decisivo, já que influencia diretamente os custos operacionais e logísticos do sistema.

Além dos aspectos técnicos, serão analisados impactos ambientais, infraestrutura disponível e até mesmo a percepção da sociedade em relação à implantação da tecnologia.

Projeto será desenvolvido em duas etapas

O cronograma estabelecido prevê duas fases distintas.

Nos primeiros dois anos, os pesquisadores irão realizar estudos de prospecção, avaliação geológica e análises de viabilidade técnica, econômica e ambiental. O objetivo será identificar as regiões mais promissoras para a implementação da tecnologia em São Paulo.

Durante esse período também serão desenvolvidos estudos sobre regulamentação, licenciamento ambiental, custos operacionais e potencial de geração de créditos de carbono.

Na segunda fase, o projeto avançará para a construção e operação da planta piloto de captura e armazenamento de carbono.

A expectativa é que a experiência sirva como referência para futuras iniciativas em outras regiões produtoras de etanol do Brasil.

Agro brasileiro ganha nova ferramenta para descarbonização

A iniciativa reforça o protagonismo do agronegócio brasileiro na busca por soluções sustentáveis e na redução das emissões globais de gases de efeito estufa.

O setor sucroenergético já é reconhecido internacionalmente pela produção de biocombustíveis renováveis, capazes de reduzir significativamente as emissões em comparação aos combustíveis fósseis.

Com a adoção da tecnologia BECCS, o Brasil poderá avançar para uma nova etapa, transformando a produção de etanol em uma atividade capaz não apenas de reduzir emissões, mas também de remover carbono da atmosfera.

Atualmente, o país possui apenas uma planta de captura e armazenamento de carbono voltada ao etanol de milho, localizada no Mato Grosso. A futura usina paulista será a primeira dedicada exclusivamente ao etanol de cana-de-açúcar.

Especialistas avaliam que o projeto poderá servir de modelo para outras regiões produtoras e consolidar o Brasil como uma referência mundial em bioenergia de baixo carbono.

Perspectivas para o futuro

A criação da primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono para o etanol de cana representa um marco para o agronegócio, a indústria de biocombustíveis e a agenda ambiental do país.

Além de contribuir para o combate às mudanças climáticas, a iniciativa pode abrir novas oportunidades econômicas por meio do mercado de carbono, aumentar a competitividade do etanol brasileiro e fortalecer a imagem do setor agropecuário nacional como protagonista da transição energética global.

Se os resultados esperados forem alcançados, São Paulo não apenas consolidará sua liderança na produção de etanol, mas também poderá se tornar referência mundial em tecnologias que unem produtividade agrícola, inovação e sustentabilidade.

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