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igor . 9 min

Safra de lã no RS mira produção de 8 milhões de kg

30 Oct

Chuvas e temperaturas baixas dificultam a tosquia de ovinos no estado, enquanto criadores buscam preservar a qualidade da fibra e aproveitar as oportunidades do mercado internacional.

A produção de lã no Rio Grande do Sul deve alcançar aproximadamente 8 milhões de quilos nesta safra, segundo estimativa da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). Apesar da perspectiva de produção, os criadores enfrentam dificuldades para avançar com a tosquia dos rebanhos. A combinação de chuvas frequentes e temperaturas baixas tem atrasado os trabalhos em diferentes regiões do estado e aumentado a preocupação com a qualidade da fibra.

O cenário exige atenção dos produtores, principalmente porque o momento da retirada da lã e os cuidados adotados durante o processo influenciam diretamente o aproveitamento comercial do produto. Além do volume produzido, fatores como coloração, presença de fungos, contaminação por vegetação e acondicionamento adequado podem determinar o valor recebido pelos criadores.

Em algumas propriedades, as equipes responsáveis pela tosquia precisaram interromper temporariamente as atividades. A expectativa é de que a melhora das condições climáticas permita retomar os trabalhos e reduzir os impactos sobre a produção.

Chuva e frio atrasam a tosquia de ovinos

Na região de Herval, no sul gaúcho, um grupo de tosquiadores permanece sem trabalhar enquanto aguarda temperaturas mais elevadas e condições favoráveis para realizar a retirada da lã dos animais.

A situação reflete uma dificuldade enfrentada por parte da ovinocultura gaúcha neste período. A tosquia depende de condições apropriadas para evitar problemas relacionados à umidade, tanto nos animais quanto na fibra retirada. Quando o procedimento ocorre em condições desfavoráveis, aumentam os cuidados necessários para preservar o material e evitar perdas de qualidade.

De acordo com Sérgio Muñoz, coordenador do Programa de Lã Certificada da Arco, os criadores aguardam uma mudança no clima para dar continuidade às atividades. A entidade acompanha a evolução da safra e avalia os possíveis reflexos das condições meteorológicas sobre a qualidade da produção.

Embora as chuvas registradas nos últimos meses tenham provocado preocupação, os prejuízos associados ao excesso de umidade ficaram abaixo das primeiras expectativas. Segundo Muñoz, houve propriedades que registraram acumulados entre 600 e 700 milímetros de chuva, mas os danos observados foram menores do que o inicialmente previsto.

O resultado é considerado importante para o setor, já que a qualidade da lã representa um dos principais fatores para a comercialização e a obtenção de melhores preços.

Atraso pode aumentar a contaminação da lã

Um dos pontos de atenção para os produtores está relacionado ao prolongamento do período de tosquia. Quanto mais tempo a lã permanece nos animais, maior pode ser a exposição do velo a elementos presentes nas pastagens, especialmente plantas cujas sementes conseguem aderir às fibras.

Entre as espécies que preocupam os criadores está a flechilha, um tipo de capim que produz sementes com formato semelhante ao de pequenas flechas. Essas estruturas podem ficar presas à lã e comprometer a limpeza do material, dificultando o processamento industrial.

O problema ganha importância com a aproximação de novembro, período em que a incidência dessa vegetação tende a aumentar. Dessa maneira, o atraso provocado pelo clima pode gerar uma dificuldade adicional para os produtores que ainda não conseguiram concluir a tosquia.

A presença de materiais vegetais na fibra interfere no aproveitamento industrial e pode reduzir o valor comercial dos lotes. Dependendo do grau de contaminação, a lã exige etapas adicionais de limpeza e seleção, o que representa custos e pode limitar sua utilização em determinados produtos têxteis.

Além da contaminação por plantas, a umidade também exige atenção quanto à coloração e à possibilidade de desenvolvimento de fungos. As chuvas registradas em agosto levantaram preocupações sobre esses aspectos, mas a avaliação da Arco indica que os impactos foram menos intensos do que se imaginava inicialmente.

Para os criadores, o desafio agora é aproveitar as próximas janelas de tempo favorável para concluir a retirada da lã sem comprometer as características da fibra.

Apenas parte da produção deve alcançar maior valor têxtil

Apesar da expectativa de 8 milhões de quilos de lã nesta safra, nem todo o volume produzido deverá apresentar características adequadas para os segmentos de maior exigência da indústria têxtil.

A estimativa da Arco é de que entre 2 milhões e 3 milhões de quilos tenham potencial para alcançar um bom valor têxtil. A entidade, entretanto, reconhece que a mensuração desse volume é complexa, uma vez que a classificação depende de diferentes características da fibra e da avaliação dos lotes.

A qualidade da lã está relacionada a aspectos como finura, comprimento, uniformidade, resistência e limpeza. Essas propriedades influenciam diretamente a possibilidade de utilização industrial e a valorização do produto.

Outro fator que interfere no perfil da produção gaúcha é a mudança na composição genética dos rebanhos ao longo dos últimos anos.

Durante a pandemia e no período posterior, as cotações da lã registraram retração, reduzindo a atratividade econômica da atividade para parte dos criadores. Diante desse cenário, alguns produtores passaram a realizar cruzamentos de ovinos de raças tradicionalmente utilizadas para produção de lã com animais de raças voltadas à produção de carne.

A estratégia buscou diversificar as fontes de receita das propriedades e diminuir a dependência do mercado de fibras. Entretanto, essa mudança também provocou alterações na qualidade de determinados lotes, especialmente quando o objetivo era manter características valorizadas pela indústria têxtil.

Esse movimento ajuda a explicar por que uma parcela da produção atual não apresenta o mesmo padrão de qualidade exigido pelos compradores mais especializados.

Certificação da lã busca ampliar a valorização do produto gaúcho

Em meio às dificuldades climáticas e às diferenças de qualidade entre os lotes, a certificação aparece como uma ferramenta importante para melhorar a comercialização da lã brasileira.

A Associação Brasileira de Criadores de Ovinos mantém equipes cadastradas em seu Programa de Lã Certificada. Atualmente, são 12 equipes inscritas na página oficial da entidade, embora nem todas devam atuar exclusivamente com propriedades participantes do programa durante toda a safra.

Parte dos profissionais também realiza tosquias em rebanhos de produtores que não estão inscritos na iniciativa. Além disso, equipes provenientes do Uruguai participam dos trabalhos no Rio Grande do Sul, principalmente na região da Fronteira Oeste.

Por esse motivo, a Arco ainda não consolidou o volume total de lã que deverá receber certificação nesta temporada.

O programa tem como objetivo estimular melhores práticas na produção, desde o manejo dos animais até a retirada, separação e acondicionamento da fibra. Esses procedimentos são importantes para garantir maior padronização e atender às exigências de compradores que trabalham com matérias-primas de qualidade controlada.

A certificação também pode ajudar a aproximar os produtores brasileiros de mercados que valorizam a rastreabilidade e a regularidade dos processos produtivos.

Para os criadores, aderir a esse tipo de iniciativa representa uma possibilidade de diferenciação comercial, principalmente em um mercado no qual a qualidade da matéria-prima influencia diretamente as condições de negociação.

Mercado internacional apresenta oportunidades para a lã brasileira

Mesmo diante dos atrasos na tosquia e das preocupações com a qualidade de parte da produção, a perspectiva para o mercado internacional é considerada favorável pela coordenação do programa da Arco.

Sérgio Muñoz avalia que a redução da oferta mundial e a diminuição dos rebanhos em diferentes regiões produtoras podem abrir espaço para uma valorização da lã.

O cenário foi discutido durante uma reunião recente realizada no Uruguai, que contou com a participação de compradores e representantes da indústria. O encontro permitiu observar o comportamento da demanda e as exigências dos mercados que trabalham com lã certificada.

Um dos pontos destacados foi o rigor dos compradores na avaliação da matéria-prima. A certificação, isoladamente, não garante a comercialização por valores superiores. É necessário que o produto apresente características compatíveis com os padrões exigidos pela indústria.

Isso significa que a qualidade precisa ser preservada em todas as etapas, desde a criação dos animais até o armazenamento e o transporte da fibra.

A menor disponibilidade mundial pode favorecer os países que conseguem oferecer lã dentro dos padrões procurados pelos compradores. Entretanto, para aproveitar esse cenário, os produtores brasileiros precisam investir em organização, padronização e melhoria dos processos de produção.

O Brasil possui condições para ampliar sua participação nesse mercado, mas a competitividade depende da capacidade de entregar volumes regulares e produtos com qualidade reconhecida.

Acondicionamento adequado é decisivo para preservar a qualidade

Outro aspecto reforçado pela Arco é o cuidado com o acondicionamento da lã após a tosquia. A forma como a fibra é separada, embalada e armazenada pode influenciar significativamente sua conservação e aceitação comercial.

Misturar diferentes categorias de lã, permitir o contato com materiais contaminantes ou armazenar a fibra em locais inadequados são práticas que podem comprometer o resultado obtido na propriedade.

A separação correta dos lotes permite preservar as características individuais da produção e facilita o trabalho de classificação realizado posteriormente.

Para os produtores que desejam acessar mercados mais exigentes, o acompanhamento das orientações técnicas e a adoção de procedimentos padronizados são medidas importantes.

A recomendação da associação é que os criadores considerem a certificação e aprimorem os cuidados durante todas as etapas da atividade. A intenção é preparar a produção gaúcha para atender a compradores que exigem padrões específicos e estão dispostos a buscar fornecedores capazes de cumprir essas condições.

Indústria brasileira ainda avança lentamente na compra de lã certificada

Apesar das oportunidades observadas no mercado externo, a comercialização de lã certificada dentro do Brasil ainda ocorre em ritmo considerado lento.

A expectativa do setor é de que a procura nacional acompanhe gradualmente as exigências dos mercados internacionais, criando melhores condições para a valorização da fibra produzida no país.

Esse movimento depende tanto do interesse das indústrias quanto da capacidade dos criadores de fornecer matéria-prima padronizada. Uma aproximação maior entre produtores, classificadores, compradores e empresas de processamento pode contribuir para reduzir dificuldades comerciais e ampliar a participação da lã certificada na indústria brasileira.

O desenvolvimento dessa cadeia também é importante para estimular a permanência da atividade nas propriedades rurais. Com melhores condições de comercialização, a produção de lã pode voltar a representar uma alternativa econômica mais atrativa, especialmente em regiões tradicionais da ovinocultura.

Safra de lã gaúcha depende do clima e da valorização da fibra

A temporada atual reúne dois desafios importantes para a ovinocultura do Rio Grande do Sul: concluir a tosquia dentro de condições adequadas e preservar a qualidade necessária para atender aos diferentes mercados consumidores.

A estimativa de 8 milhões de quilos demonstra a relevância da produção gaúcha, mas o resultado econômico dependerá também da classificação dos lotes e da parcela que conseguirá alcançar maior valor têxtil.

Com a expectativa de uma oferta internacional menor, a certificação e o cuidado com o acondicionamento ganham ainda mais importância. O setor busca transformar as oportunidades do mercado em melhores condições de remuneração para os criadores.

Enquanto isso, a evolução do clima nas próximas semanas será determinante para o andamento dos trabalhos nas propriedades. A retomada da tosquia poderá reduzir os riscos relacionados à exposição prolongada da lã e permitir que os produtores avancem no fechamento de mais uma safra.

Mais do que alcançar o volume projetado, o desafio da ovinocultura gaúcha será entregar uma fibra de qualidade, capaz de atender às exigências da indústria e fortalecer a competitividade da lã brasileira nos mercados nacional e internacional.

Fonte: SouAgro

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