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Tensões globais colocam mercado agrícola em alerta

22 Sep

Os conflitos geopolíticos que se espalham por diferentes regiões do mundo estão adicionando novas fontes de incerteza aos mercados agrícolas. Além dos efeitos diretamente relacionados à oferta e à demanda de commodities, as tensões internacionais também atingem o preço do petróleo, do diesel, o transporte marítimo e os custos de produção no campo.

Para o agronegócio brasileiro, que possui forte participação no comércio internacional de soja, milho, café, açúcar, carnes e outras commodities, mudanças no cenário externo podem chegar rapidamente aos preços internos. O aumento das despesas logísticas é um dos principais pontos de atenção, principalmente quando ocorre simultaneamente a problemas climáticos e dificuldades nas rotas de exportação.

Uma análise recente do Rabobank colocou entre os principais focos de risco para os mercados agrícolas o cenário no Mar Negro, as interrupções e tensões próximas ao Estreito de Ormuz e os efeitos do El Niño sobre commodities tropicais. A instituição também acompanha os reflexos das mudanças na demanda chinesa e das condições de oferta de importantes produtos agrícolas.

Mar Negro continua no radar do mercado agrícola

A região do Mar Negro permanece como um dos pontos mais sensíveis para o comércio mundial de grãos. Rússia e Ucrânia têm participação relevante nas exportações internacionais de trigo, milho, cevada e outros produtos agrícolas, fazendo com que qualquer interrupção na infraestrutura de transporte tenha potencial para alterar os fluxos comerciais.

Nas últimas semanas, ataques contra estruturas ligadas à logística e à energia voltaram a chamar atenção. Em 20 de setembro, um grande ataque ucraniano contra alvos em território russo atingiu, entre outras estruturas, uma refinaria de petróleo na região de Moscou, segundo autoridades russas e reportagens internacionais. O episódio ocorreu em meio à continuidade dos ataques entre os dois países.

Os efeitos sobre o setor agrícola não se limitam aos danos provocados diretamente em portos, armazéns ou terminais. Quando uma rota de exportação fica mais arriscada, empresas podem buscar caminhos alternativos, elevando o custo de frete e aumentando o tempo necessário para transportar a mercadoria.

A Rússia, por exemplo, começou a adaptar terminais que tradicionalmente movimentavam fertilizantes e carvão para receber cargas de grãos. Segundo a Reuters, a mudança ocorre após interrupções nos embarques pelo Mar Negro provocadas por ataques de drones. A reportagem também aponta que as exportações russas de grãos caíram 31% em julho e agosto, enquanto a expectativa para setembro indicava redução ainda maior na comparação anual.

Esse movimento mostra como a infraestrutura logística se tornou uma variável cada vez mais importante para o mercado agrícola internacional.

Petróleo e diesel pressionam custos do agronegócio

Enquanto o Mar Negro concentra preocupações relacionadas ao transporte de grãos, o Oriente Médio mantém os mercados de energia sob pressão.

O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas utilizadas para o transporte marítimo de petróleo e derivados. Qualquer aumento no risco de navegação na região pode provocar mudanças nas rotas, aumento dos seguros e elevação dos custos de transporte.

A consequência chega diretamente ao agronegócio. Diesel e combustíveis são utilizados em praticamente todas as etapas da produção e distribuição agrícola, desde o preparo do solo e plantio até a colheita, armazenagem e transporte das mercadorias.

Quando o diesel sobe, o impacto pode aparecer no frete rodoviário, no custo das máquinas agrícolas e na movimentação de produtos entre fazendas, armazéns, indústrias, portos e centros consumidores.

O mercado internacional de energia também tem sido afetado pela combinação entre conflitos no Oriente Médio e ataques contra estruturas de petróleo na Rússia. Reportagens recentes apontam que os ataques sobre refinarias russas contribuíram para pressionar a disponibilidade de combustíveis, enquanto as tensões envolvendo o Estreito de Ormuz mantêm o petróleo no centro das preocupações dos mercados.

Para o produtor brasileiro, o impacto pode ocorrer mesmo sem qualquer alteração na produção nacional. Isso acontece porque o preço dos combustíveis está conectado ao mercado internacional de petróleo e aos custos de importação, refino e distribuição.

Soja ganha força com compras da China

Em meio às tensões geopolíticas, a soja apresenta outro fator importante para o mercado agrícola: a retomada das compras chinesas nos Estados Unidos.

Os dados divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que compradores chineses continuaram registrando novas aquisições de soja norte-americana para a temporada 2026/27. Somente em 18 de setembro, exportadores privados dos Estados Unidos informaram uma venda de 111 mil toneladas para a China. Nos dias anteriores, também foram registradas operações expressivas envolvendo o mercado chinês.

O aumento das compras ocorre em um momento de aproximação comercial entre Washington e Pequim e antes de uma cúpula prevista para o fim de setembro.

A movimentação chinesa tem importância especial para o mercado de soja porque a China é o principal comprador mundial da oleaginosa. Alterações no ritmo das compras podem modificar os fluxos internacionais e influenciar as cotações negociadas na Bolsa de Chicago.

Esse cenário também interessa diretamente ao Brasil. O país é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de soja e disputa com os Estados Unidos a preferência dos compradores asiáticos.

Quando a China aumenta as compras norte-americanas, o mercado passa a observar se esse movimento representa apenas uma recomposição temporária dos estoques ou uma mudança mais duradoura no padrão de abastecimento.

Chicago reage às expectativas do comércio internacional

As cotações agrícolas em Chicago incorporam diariamente informações sobre clima, estoques, produção, consumo, exportações e questões geopolíticas.

No caso da soja, a combinação entre maior demanda chinesa e incertezas relacionadas à oferta e ao transporte contribui para aumentar a atenção dos investidores.

O Rabobank também destacou recentemente a importância da demanda chinesa para as commodities agrícolas e apontou riscos relacionados ao Mar Negro e à disponibilidade de estoques de milho.

Isso significa que o produtor brasileiro precisa acompanhar não apenas as condições da lavoura nacional, mas também acontecimentos que ocorrem milhares de quilômetros distante das propriedades.

Uma alteração na política comercial chinesa, uma interrupção em uma rota marítima ou uma escalada nos preços do petróleo pode modificar rapidamente as referências utilizadas para a formação dos preços agrícolas.

El Niño adiciona mais uma variável

Além das guerras e das disputas comerciais, o clima continua sendo uma das principais fontes de incerteza para o agronegócio mundial.

Os possíveis efeitos do El Niño sobre commodities tropicais também aparecem entre os pontos monitorados pelo Rabobank. Eventos climáticos capazes de alterar temperatura e distribuição das chuvas podem afetar culturas como café, açúcar, cacau e outras commodities produzidas em regiões tropicais.

O problema para o mercado ocorre quando fatores climáticos e geopolíticos aparecem simultaneamente.

Uma quebra de produção pode reduzir a oferta de determinada commodity, enquanto problemas logísticos podem dificultar sua movimentação. Ao mesmo tempo, o petróleo mais caro pode elevar o custo de transporte e produção.

Esse conjunto de fatores aumenta a possibilidade de oscilações nos preços internacionais e exige maior atenção dos participantes das cadeias agrícolas.

Brasil permanece exposto aos movimentos internacionais

O agronegócio brasileiro possui uma posição relevante no comércio global e, por isso, não está isolado das turbulências externas.

A valorização do dólar, alterações no petróleo, custos de frete marítimo, demanda chinesa e problemas em grandes corredores de exportação podem influenciar a formação dos preços recebidos pelos produtores.

No caso da soja, por exemplo, o preço doméstico combina fatores internacionais, câmbio, prêmio de exportação e condições regionais de oferta e demanda. No milho, a disponibilidade interna e o mercado externo também podem alterar as referências de comercialização.

Para o setor pecuário, o impacto dos combustíveis aparece principalmente nos custos de transporte de animais, ração, insumos e produtos processados.

Assim, os conflitos internacionais deixam de ser apenas uma questão diplomática ou militar e passam a fazer parte do conjunto de variáveis acompanhadas diariamente pelo agronegócio.

Enquanto as negociações comerciais entre Estados Unidos e China avançam, a situação no Mar Negro permanece delicada e o mercado de energia continua reagindo às tensões no Oriente Médio, produtores, tradings, indústrias e transportadoras precisam lidar com um ambiente de maior volatilidade.

O cenário para as commodities agrícolas, portanto, continua sendo influenciado por uma combinação de fatores que vão muito além das condições dentro das propriedades rurais. Produção, clima, demanda, câmbio, petróleo e logística passaram a caminhar cada vez mais próximos na formação dos preços do agronegócio mundial.

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