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igor . 8 min

Mundo pode enfrentar maior déficit de milho em 30 anos

20 Sep

O mercado mundial de milho pode entrar em uma das temporadas mais apertadas das últimas décadas. Para 2026/27, as projeções apontam que o consumo global do cereal ficará próximo de 30 milhões de toneladas acima da produção. A diferença não representa, necessariamente, falta física de milho nos mercados, mas mostra que os estoques acumulados anteriormente deverão ser utilizados para equilibrar a oferta e a demanda.

Os números ganham importância porque surgem em um momento no qual os Estados Unidos devem colher uma das maiores safras de milho de sua história. Mesmo com uma produção elevada no principal país exportador, o crescimento do consumo mundial e as revisões para baixo nas estimativas de produção em diferentes regiões reduziram a margem de segurança do mercado.

O cenário foi destacado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, em suas projeções mais recentes. O órgão reduziu em 5,1 milhões de toneladas a estimativa para a produção mundial de grãos forrageiros em 2026/27. Dentro desse ajuste, a previsão para o milho caiu aproximadamente 5,4 milhões de toneladas, enquanto a produção de milho fora dos Estados Unidos foi revisada para baixo em 2,5 milhões de toneladas. A Índia respondeu por uma das principais reduções, com corte de 2 milhões de toneladas na estimativa.

Consumo mundial de milho cresce e reduz a folga dos estoques

O principal ponto de atenção não está apenas no tamanho da safra, mas na relação entre o que o mundo produz e aquilo que consome.

Dados recentes do USDA indicam que a produção mundial de milho em 2026/27 deverá ficar abaixo do consumo global em quase 30 milhões de toneladas. A Reuters classificou o movimento como o maior déficit entre produção e consumo em mais de 30 anos, com base nas projeções do departamento americano.

Quando essa diferença aparece em uma temporada, o mercado recorre aos estoques carregados de anos anteriores. O problema surge quando as reservas disponíveis diminuem. Com menos milho armazenado, uma eventual quebra de safra provocada por seca, excesso de chuva, geadas ou outros eventos climáticos passa a ter potencial maior de impacto sobre os preços.

O próprio USDA reduziu em 1,6 milhão de toneladas a projeção dos estoques finais globais de grãos forrageiros na atualização mais recente.

Isso ajuda a explicar por que o comportamento do mercado merece atenção mesmo diante da perspectiva de uma grande safra norte-americana.

Grande safra dos Estados Unidos não elimina as preocupações

Os Estados Unidos continuam ocupando uma posição central no comércio internacional de milho. A expectativa de uma produção elevada normalmente representa um fator de pressão sobre as cotações, principalmente durante o período de colheita.

Em 2026, porém, a reação do mercado ocorreu de maneira diferente.

Segundo levantamento citado pela Reuters, os contratos futuros de milho em Chicago acumularam alta de aproximadamente 16% durante agosto. O movimento aconteceu justamente em um período próximo ao início da colheita americana, quando normalmente existe maior percepção de disponibilidade física do cereal.

A valorização não significa que o mercado esteja diante de uma crise de abastecimento. O que mudou foi a percepção sobre a margem disponível entre oferta e consumo.

Uma safra grande nos Estados Unidos ajuda a abastecer o mercado, mas não necessariamente consegue compensar sozinha o crescimento da demanda mundial e as reduções observadas em outros países produtores.

Além disso, o USDA informou que a projeção para a produção mundial de grãos forrageiros foi reduzida na atualização de setembro, com o milho americano respondendo pela maior parte do corte.

Área agrícola também ajuda a explicar o cenário

Existe ainda um componente estrutural por trás do mercado internacional de milho.

Nos últimos anos, grandes países exportadores ampliaram significativamente as áreas destinadas às oleaginosas, principalmente soja. O crescimento da área destinada aos grãos, por outro lado, foi mais limitado.

Na prática, isso significa que uma parcela cada vez maior do aumento da oferta mundial depende da produtividade obtida em cada hectare.

Enquanto clima e tecnologia permitem ganhos de rendimento, o sistema consegue acompanhar o crescimento do consumo. Quando ocorre uma quebra relevante de produtividade, entretanto, não existe necessariamente uma grande quantidade de novas áreas disponíveis para compensar rapidamente a perda.

Essa característica deixa o mercado internacional mais sensível às condições climáticas.

Brasil ganha importância no mercado internacional

Nesse cenário, o Brasil passa a ocupar uma posição ainda mais estratégica.

A expansão da segunda safra transformou o país em um dos principais produtores e exportadores de milho do mundo. A produção brasileira também ganhou importância para países que dependem das importações para abastecer a indústria de ração e outros segmentos.

Para 2026/27, a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, estima uma produção brasileira de milho próxima de 148 milhões de toneladas. A estatal também trabalha com uma safra total de grãos de aproximadamente 366,6 milhões de toneladas, que, caso se confirme, será a maior da série histórica da companhia.

O crescimento da produção brasileira, portanto, pode contribuir para ampliar a oferta internacional.

Mas existe uma diferença importante em relação a ciclos anteriores: o mercado doméstico brasileiro também está consumindo uma parcela cada vez maior do milho produzido no país.

Etanol de milho muda o mercado brasileiro

A expansão do etanol produzido a partir do milho é uma das principais mudanças estruturais do agronegócio brasileiro nos últimos anos.

Usinas instaladas principalmente no Centro-Oeste passaram a consumir grandes volumes do cereal. Com isso, o milho que anteriormente poderia seguir diretamente para exportação encontra uma nova alternativa de comercialização dentro do próprio país.

A transformação é especialmente importante para Mato Grosso, Goiás e outros estados produtores, onde a proximidade das indústrias pode alterar a formação dos preços e a logística do cereal.

O milho brasileiro passou a ter, de forma cada vez mais clara, diferentes destinos possíveis: alimentação animal, indústria, exportação e produção de biocombustíveis.

Essa diversificação aumenta a quantidade de compradores disponíveis, mas também modifica o equilíbrio entre o volume produzido e o excedente efetivamente disponível para exportação.

Exportações brasileiras entram em ritmo diferente

Os embarques brasileiros também refletem essa mudança.

Dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, a Anec, mostram a importância do milho brasileiro no comércio exterior, enquanto projeções recentes apontam um ritmo de exportações abaixo do registrado em determinados períodos de 2025.

A redução dos embarques não deve ser interpretada automaticamente como perda de competitividade do Brasil.

Parte da explicação está no aumento da demanda interna. Quando uma parcela maior da produção é absorvida por consumidores brasileiros, naturalmente sobra menos milho para os portos.

Esse movimento pode ser ainda mais relevante em anos nos quais o mercado internacional apresenta estoques menores. Se o Brasil exportar menos justamente em um período de maior necessidade mundial por milho, outros grandes fornecedores terão de assumir parte desse espaço.

Produtor brasileiro ganha novos canais de comercialização

Para o agricultor, a mudança cria uma dinâmica diferente de comercialização.

Durante muitos anos, a exportação foi um dos principais destinos para o excedente da segunda safra. Agora, a presença da indústria de etanol acrescenta uma nova referência para o produtor.

Em determinadas regiões, o agricultor pode comparar as condições oferecidas pela indústria local com os preços praticados por tradings, cooperativas e compradores ligados à alimentação animal.

Isso não significa que o milho necessariamente terá preços mais altos. O valor recebido pelo produtor continua dependendo de uma combinação de fatores, incluindo Chicago, dólar, frete, prêmio de exportação, estoques regionais, custo de produção e oferta local.

Mesmo assim, a ampliação dos compradores modifica a estrutura do mercado.

Clima pode ganhar ainda mais peso nas cotações

Com uma relação mais apertada entre produção e consumo, o clima tende a ganhar importância.

Uma grande safra em determinado país pode aliviar temporariamente o mercado, mas uma quebra relevante em uma região produtora pode mudar rapidamente as expectativas.

Para o Brasil, o desenvolvimento da safra 2026/27 será acompanhado de perto. A Conab aponta crescimento da área de milho, mas ressalta que o potencial produtivo dependerá das condições climáticas ao longo do desenvolvimento das lavouras.

A situação também será acompanhada nos Estados Unidos, onde as decisões de plantio para a próxima temporada podem influenciar o balanço mundial de oferta.

Se os agricultores americanos ampliarem a área de milho, o mercado poderá receber uma sinalização de maior disponibilidade futura. Caso a área permaneça limitada pela competição com soja e outras culturas, a pressão sobre os estoques pode continuar.

O mercado de milho entra em uma nova fase

A combinação de demanda crescente, estoques mais apertados, produção revisada em diferentes países e expansão do consumo de milho para etanol está mudando a dinâmica do mercado.

O Brasil ocupa um lugar central nessa transformação. O país possui capacidade para produzir grandes volumes e ampliar sua participação no comércio internacional, mas também está criando uma demanda interna cada vez mais forte.

Ao mesmo tempo, o USDA aponta que a produção mundial de grãos forrageiros sofreu nova revisão negativa em setembro, reforçando a atenção sobre o equilíbrio global entre oferta e consumo.

Para os próximos meses, os participantes do mercado deverão acompanhar especialmente a evolução das lavouras brasileiras, o clima nos principais países produtores, os estoques dos Estados Unidos, o comportamento do dólar, as cotações do milho na Bolsa de Chicago e o ritmo de consumo das usinas brasileiras de etanol.

A safra 2026/27 começa, portanto, em um ambiente diferente daquele observado em períodos de ampla disponibilidade. O mundo ainda terá milhões de toneladas de milho circulando, mas a margem entre o que é produzido e o que é consumido tende a ficar menor.

É justamente essa redução da folga que pode tornar o mercado mais sensível às próximas informações sobre produção, clima, estoques e demanda.

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