O avanço das práticas de agricultura de baixo carbono começa a colocar o produtor rural no centro de uma transformação que envolve meio ambiente, produtividade e novas possibilidades de geração de receita. Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vêm mostrando que atividades como recuperação de pastagens, rotação de culturas, plantio direto, sistemas integrados e uso de microrganismos podem contribuir para retirar carbono da atmosfera e aumentar o estoque do elemento no solo.
O movimento ganha relevância diante do crescimento do mercado mundial de carbono. Dados do Banco Mundial apontam que os sistemas de precificação de carbono movimentaram mais de R$ 556 bilhões em receitas públicas ao longo de 2025, considerando a conversão pela cotação Ptax mais recente. O montante reúne recursos provenientes de impostos sobre emissões e de mecanismos regulados de negociação de carbono.
Atualmente, 87 instrumentos de precificação estão em operação no mundo. Juntos, eles alcançam pouco mais de 29% das emissões globais de gases de efeito estufa. Para o agronegócio brasileiro, a expansão desse mercado aumenta a importância de pesquisas capazes de medir com precisão quanto carbono pode ser armazenado ou quanto de emissão pode ser evitada dentro das propriedades rurais.
Solo brasileiro tem potencial para recuperar carbono
Um dos estudos que ajudam a dimensionar esse potencial foi desenvolvido por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), Embrapa Agricultura Digital e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Publicado em 2026 na revista Nature Communications, o trabalho analisou informações produzidas ao longo de aproximadamente três décadas. Ao todo, foram considerados 4.290 registros provenientes de 372 estudos realizados nos seis biomas brasileiros.
A análise estimou que a transformação de áreas naturais em áreas destinadas à produção agropecuária provocou uma redução de aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas de carbono armazenado nos solos brasileiros.
Quando convertido para dióxido de carbono equivalente, o volume chega a cerca de 5,2 bilhões de toneladas.
Os pesquisadores utilizam o conceito de “dívida de carbono” para representar a diferença entre a quantidade de carbono presente em áreas de vegetação nativa e aquela encontrada atualmente em áreas utilizadas para produção.
A expressão não significa que todo o carbono perdido possa necessariamente ser recuperado. O resultado, porém, indica que mudanças no manejo podem contribuir para reconstruir parte do estoque de matéria orgânica perdido ao longo do processo de ocupação agropecuária.
Esse potencial varia bastante entre regiões, tipos de solo e sistemas produtivos.
No Cerrado, por exemplo, a substituição de áreas conduzidas em monocultura por sistemas integrados apresentou potencial teórico de aumentar em 15,3% o estoque de carbono no solo. Na Amazônia, a rotação ou o consórcio entre culturas apresentou potencial de incremento de 14,1%.
Integração entre lavoura, pecuária e floresta
Os números encontrados em estudos nacionais também começam a aparecer em experimentos realizados diretamente no campo.
Um exemplo está em Sinop, no norte de Mato Grosso, onde pesquisadores da Embrapa Agrossilvipastoril e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) acompanharam diferentes combinações entre agricultura, pecuária e árvores.
O acompanhamento ocorreu durante quatro anos e avaliou sistemas de integração lavoura, pecuária e floresta.
Ao final do período, todos os modelos analisados apresentaram remoção de carbono superior às emissões contabilizadas dentro do experimento. O maior saldo foi registrado no sistema de integração pecuária-floresta, com 51,3 toneladas de dióxido de carbono equivalente por hectare.
Na integração lavoura-pecuária-floresta, o saldo chegou a 39,5 toneladas de CO₂ equivalente por hectare.
É importante observar que esses valores representam o resultado acumulado durante os quatro anos de avaliação, e não uma quantidade removida anualmente.
O desempenho dos sistemas está relacionado a diferentes componentes. As árvores acumulam carbono em troncos, galhos e raízes, enquanto uma pastagem manejada adequadamente pode aumentar a quantidade de matéria orgânica incorporada ao solo.
Além do benefício ambiental, o manejo integrado também pode produzir ganhos agrícolas e pecuários.
Durante os primeiros seis anos de avaliação, por exemplo, o teor de matéria orgânica na camada de até 20 centímetros do solo aumentou de 1,8% para 2,8%. Esse crescimento representou a incorporação de mais de 11 toneladas de carbono orgânico por hectare.
No mesmo período, a produtividade do milho passou de aproximadamente 80 para 180 sacas por hectare. A produção de carne, por sua vez, saiu de duas para até 16 arrobas por hectare.
Os resultados ajudam a explicar por que os sistemas de produção integrados aparecem com frequência nas discussões sobre agricultura de baixo carbono. A estratégia busca combinar recuperação do solo, produção de alimentos e armazenamento de carbono na mesma área.
Pecuária também busca reduzir emissões
A pecuária brasileira é outra atividade que vem recebendo atenção nas pesquisas relacionadas ao carbono.
A Embrapa Gado de Corte desenvolveu protocolos específicos para sistemas de produção conhecidos como Carne Carbono Neutro e Carne Baixo Carbono.
No primeiro caso, a proposta envolve a utilização de árvores em sistemas produtivos para compensar parte das emissões associadas principalmente ao metano produzido pelos bovinos durante a digestão.
Experimentos indicaram que aproximadamente 200 árvores em crescimento por hectare poderiam armazenar quantidade de carbono suficiente para compensar as emissões anuais de metano entérico produzidas por 11 bovinos adultos.
Isso não significa, entretanto, que uma propriedade possa ser considerada automaticamente carbono neutro apenas pela presença de árvores.
Uma avaliação completa precisa considerar diferentes fontes de gases de efeito estufa. Entre elas estão o uso de fertilizantes, combustíveis, energia, manejo do solo, alimentação animal e outras atividades relacionadas à produção.
A medição precisa, portanto, ser feita considerando o conjunto da propriedade e seguindo uma metodologia reconhecida.
Microrganismos ajudam a reduzir uso de fertilizantes
Outra frente importante está relacionada ao uso de microrganismos na agricultura.
A fixação biológica de nitrogênio é uma das tecnologias desenvolvidas e aperfeiçoadas no Brasil por instituições de pesquisa, incluindo a Embrapa Agrobiologia e a Embrapa Soja.
Nesse processo, bactérias associadas às raízes das plantas conseguem disponibilizar nitrogênio a partir do ar, reduzindo a necessidade de aplicação de fertilizantes nitrogenados.
O exemplo mais conhecido está na produção de soja.
De acordo com estimativas da Embrapa, a tecnologia evita aproximadamente 12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano. A redução está relacionada tanto à menor necessidade de fabricação e transporte de fertilizantes nitrogenados quanto à diminuição das emissões de óxido nitroso no solo.
Além de representar uma ferramenta de redução de emissões, a tecnologia também possui importância econômica para a produção agrícola, já que diminui a dependência de uma parcela dos fertilizantes utilizados nas lavouras.
Como funciona o mercado de carbono
O mercado de carbono utiliza uma unidade que, em termos gerais, corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera.
Esses créditos podem ser comercializados com empresas interessadas em compensar ou cumprir metas relacionadas às suas emissões, dependendo das regras do mercado em questão.
Existem diferenças importantes entre os mercados regulados e voluntários.
Nos sistemas regulados, governos estabelecem regras, limites e obrigações para determinados setores. Já no mercado voluntário, empresas e organizações participam das negociações sem que exista necessariamente uma obrigação legal específica que determine a compra dos créditos.
No Brasil, a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), por meio da Lei nº 15.042, de 2024, estabeleceu uma estrutura para o desenvolvimento do mercado regulado nacional.
A produção agropecuária primária e a infraestrutura diretamente associada aos imóveis rurais ficaram fora das obrigações impostas inicialmente pelo sistema.
Isso significa que o produtor rural não passa automaticamente a ter uma obrigação de entregar cotas de emissão em razão das emissões geradas pela atividade primária. Ao mesmo tempo, essa exclusão não impede que propriedades rurais desenvolvam projetos capazes de gerar créditos de carbono.
Quando atenderem às exigências estabelecidas, essas iniciativas poderão resultar em Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões, conhecidos como CRVEs.
Medição será fundamental para o produtor rural
A possibilidade de transformar práticas de baixo carbono em ativos negociáveis, entretanto, depende de comprovação técnica.
Um projeto precisa estabelecer uma linha de base, identificar quanto carbono estava armazenado antes da mudança de manejo e acompanhar os resultados obtidos depois da implantação da iniciativa.
Também é necessário comprovar que a redução ou remoção atribuída ao projeto realmente ocorreu, além de passar pelos processos de verificação previstos nas regras aplicáveis.
Outro ponto importante é evitar a chamada dupla contagem. O mesmo benefício ambiental não pode ser comercializado ou contabilizado simultaneamente por diferentes agentes.
É justamente nesse ponto que as pesquisas desenvolvidas no Brasil ganham importância.
Uma propriedade localizada no Cerrado, por exemplo, não necessariamente apresentará o mesmo comportamento de uma área produtiva na Amazônia ou no Sul do país. Características como tipo de solo, clima, cultura cultivada, histórico de uso da terra, profundidade das amostras e sistema de manejo interferem diretamente nos estoques de carbono.
Também é necessário separar conceitos que muitas vezes são tratados como sinônimos.
Estoque de carbono, remoção de carbono e emissão evitada representam situações diferentes. A simples presença de carbono em determinada camada do solo não comprova, por si só, que aquele carbono tenha sido retirado recentemente da atmosfera.
Para transformar o resultado em uma informação confiável, são necessárias medições periódicas, métodos padronizados e acompanhamento durante vários anos.
Agro pode ganhar nova fonte de receita
O avanço do mercado de carbono abre uma frente que pode aproximar cada vez mais a agenda ambiental das decisões econômicas dentro das propriedades rurais.
Recuperar uma pastagem degradada, implantar integração lavoura-pecuária-floresta, aumentar o estoque de matéria orgânica do solo ou utilizar tecnologias biológicas para reduzir fertilizantes pode gerar efeitos que vão além da produtividade.
Entretanto, o carbono só poderá se transformar efetivamente em ativo financeiro quando houver metodologia, comprovação, monitoramento e verificação capazes de demonstrar o resultado ambiental.
O mercado brasileiro ainda está em fase de implantação e diversas regras e metodologias precisam ser consolidadas. A previsão apresentada para 2026 aponta para o início gradual do monitoramento, relato e verificação das emissões a partir de 2027, começando por setores como indústria e transporte aéreo.
Para o produtor rural, o cenário representa uma mudança importante na forma como determinadas práticas de manejo podem ser avaliadas.
O carbono deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a integrar uma discussão que envolve solo, produtividade, tecnologia, eficiência e mercado.
À medida que as pesquisas avancem e os métodos de medição se tornem mais precisos, será possível compreender melhor quanto carbono pode permanecer armazenado nos solos e na vegetação, durante quanto tempo esse estoque pode ser mantido e quais sistemas produtivos apresentam maior potencial.
Para o agronegócio brasileiro, esse conhecimento poderá ser decisivo para transformar práticas de produção sustentável em resultados ambientais mensuráveis e, em determinados casos, em uma nova oportunidade de geração de renda dentro das propriedades rurais.
Fonte: Sou Agro