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Clima ameaça o agro e já provoca R$ 455 bi em perdas

21 Sep

O clima passou a ocupar um espaço cada vez maior entre os fatores de risco para a agropecuária brasileira. Enchentes, secas, vendavais, deslizamentos e outros eventos extremos já provocaram R$ 455,5 bilhões em danos materiais e prejuízos públicos e privados entre 2015 e 2024, segundo dados do programa AdaptaCidades, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O impacto vai muito além das perdas registradas dentro das propriedades rurais. Quando uma ponte é destruída, uma estrada fica intransitável ou uma rede de energia é interrompida, toda a cadeia produtiva pode ser afetada. O problema alcança desde a chegada de sementes, fertilizantes, rações e combustíveis até o transporte de grãos, leite, frutas, carnes e outros produtos destinados às indústrias e aos consumidores.

O levantamento mostra a dimensão territorial do problema. Dos 5.570 municípios brasileiros, 4.708 registraram algum tipo de desastre entre 2015 e 2024, o equivalente a 84,5% do total. No período, aproximadamente 1,7 milhão de moradias foram danificadas e outras 293 mil acabaram destruídas.

Os registros oficiais também contabilizaram 324,6 milhões de ocorrências de pessoas afetadas. Esse número representa registros acumulados e não indivíduos diferentes, já que uma mesma pessoa pode ter sido atingida por mais de um evento durante o período analisado. Dentro desse total, 113,4 milhões de registros correspondem a impactos diretos, incluindo mortes, ferimentos, doenças, desabrigamento, desalojamento e desaparecimentos.

Eventos extremos aumentam a pressão sobre o campo

A frequência dos desastres relacionados às chuvas também chama atenção. Entre 2020 e 2023, foram registrados 7.539 desastres associados às chuvas no Brasil, enquanto durante toda a década de 1990 foram contabilizados 2.335 episódios.

O crescimento de 222,9% foi identificado em um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Para o agronegócio, a maior ocorrência de eventos extremos representa um problema especialmente complexo. A produção depende de condições climáticas adequadas, mas também de uma infraestrutura capaz de funcionar mesmo diante de períodos de chuva intensa, estiagem prolongada ou mudanças bruscas nas condições meteorológicas.

Grande parte das propriedades rurais brasileiras está conectada a centros de consumo, indústrias e corredores de exportação por meio de estradas municipais e rodovias que nem sempre apresentam pavimentação, drenagem e manutenção suficientes.

Quando uma estrada rural fica comprometida, o produtor pode enfrentar dificuldades para receber os insumos necessários à produção. Fertilizantes, sementes, defensivos agrícolas, rações e combustíveis podem deixar de chegar no momento planejado.

O caminho inverso também é afetado. Grãos, leite, frutas, hortaliças e animais precisam chegar às unidades de processamento, cooperativas, frigoríficos, armazéns e terminais de transporte dentro de determinadas condições e prazos.

Uma interrupção de poucos dias pode provocar custos adicionais e comprometer operações que dependem de uma logística contínua.

Rio Grande do Sul expôs vulnerabilidade

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 mostraram de maneira concreta como um desastre climático pode atingir simultaneamente produção, infraestrutura e logística.

Nos municípios que declararam situação de emergência, os prejuízos acumulados pela agricultura e pela pecuária ultrapassaram R$ 5,3 bilhões. Além das perdas diretamente relacionadas às atividades rurais, cooperativas, silos, agroindústrias, estradas, pontes e outras estruturas utilizadas para armazenar e transportar a produção também foram afetadas.

O episódio evidenciou que a capacidade produtiva de uma região não depende apenas das condições existentes dentro das propriedades. A atividade rural precisa de uma rede de infraestrutura funcionando para que a produção consiga chegar ao mercado.

Uma lavoura pode apresentar boa produtividade, por exemplo, mas enfrentar dificuldades para comercializar a produção caso as estradas de acesso estejam bloqueadas ou os armazéns da região tenham sido atingidos.

Mudanças na chuva também preocupam

Os riscos climáticos não estão relacionados apenas às enchentes. A redução da disponibilidade de água e as alterações no regime de chuvas também podem comprometer o planejamento agrícola.

Uma análise do Banco Central, comparando os períodos de 2000 a 2004 e de 2019 a 2023, identificou aumento das temperaturas em aproximadamente 4,3 mil municípios. Ao mesmo tempo, cerca de 4,3 mil municípios apresentaram redução das chuvas.

O levantamento também chama atenção para a relação entre clima e crédito rural. Nos 558 municípios que apresentaram as maiores quedas de precipitação estavam concentrados R$ 122,5 bilhões em operações ativas de crédito rural em junho de 2024.

O montante correspondia a pouco mais de 17% da carteira nacional de crédito rural. Na prática, o dado mostra que uma parcela significativa dos recursos destinados ao financiamento da agropecuária está presente em regiões que passaram por mudanças no comportamento das chuvas.

Essa realidade aumenta a importância do planejamento climático antes da realização de investimentos de longo prazo no campo.

Infraestrutura será decisiva para o agronegócio

O Brasil investiu aproximadamente R$ 280 bilhões em infraestrutura em 2025, segundo levantamento da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). O valor foi recorde na série acompanhada pela entidade, representando crescimento de 3% em relação ao ano anterior e aproximadamente 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB).

Cerca de 80% dos recursos tiveram origem no setor privado.

Apesar do avanço, o volume ainda está abaixo das necessidades estimadas para solucionar os gargalos históricos da infraestrutura brasileira. Uma estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta uma necessidade de aproximadamente R$ 550 bilhões por ano, equivalente a 4,65% do PIB, durante duas décadas.

Os números não podem ser comparados diretamente. Os R$ 455,5 bilhões representam danos e prejuízos acumulados durante dez anos, enquanto os R$ 280 bilhões correspondem aos investimentos realizados em infraestrutura somente em 2025 e abrangem diversos setores da economia.

Ainda assim, os dados ajudam a dimensionar dois desafios que avançam simultaneamente: ampliar a infraestrutura brasileira e proteger os investimentos existentes diante de eventos climáticos mais severos.

Adaptação precisa chegar às estradas rurais

No campo, a adaptação climática passa por obras e medidas que muitas vezes ficam fora dos grandes projetos de infraestrutura.

Estradas vicinais precisam contar com sistemas eficientes de drenagem. Pontes e bueiros devem considerar volumes maiores de água. Redes de energia e comunicação também precisam apresentar maior capacidade de resistência diante de eventos extremos.

A preocupação envolve ainda ferrovias, hidrovias, terminais portuários e estruturas de armazenagem. Mudanças nos níveis dos rios, períodos prolongados de estiagem e enchentes podem comprometer diferentes etapas da logística agrícola.

Dentro das propriedades, a adaptação também ganha espaço.

Conservação do solo, cobertura vegetal, terraceamento, sistemas de drenagem, armazenamento de água e irrigação eficiente estão entre as medidas que podem contribuir para diminuir a exposição da produção aos efeitos de períodos de excesso ou falta de chuva.

A diversificação das atividades também pode fazer parte do planejamento de propriedades rurais, principalmente em regiões sujeitas a maior variabilidade climática.

Seguro e crédito podem ganhar importância

A adaptação do agronegócio não depende somente de obras físicas. Informações meteorológicas, assistência técnica, linhas de crédito específicas e instrumentos de proteção financeira também são importantes para que o produtor consiga lidar com um cenário de maior incerteza.

O seguro rural, nesse contexto, pode exercer papel relevante na proteção da renda quando eventos climáticos provocam perdas de produtividade.

O planejamento antecipado também permite identificar pontos vulneráveis dentro da propriedade. Estradas internas, reservatórios, sistemas de irrigação, instalações para animais, armazéns e redes elétricas podem ser avaliados considerando diferentes cenários de chuva, seca e temperatura.

O programa AdaptaCidades, criado para apoiar Estados e municípios na elaboração de estratégias de adaptação, representa uma das iniciativas voltadas para essa preparação. No caso do agronegócio, a efetividade dessas políticas depende também da inclusão das áreas rurais nas ações de planejamento.

Isso envolve considerar estradas vicinais, travessias, abastecimento de energia, telecomunicações, armazenamento, defesa civil e rotas utilizadas diariamente para transportar alimentos e insumos.

Clima se transforma em questão de infraestrutura

A dimensão dos prejuízos registrados entre 2015 e 2024 mostra que o impacto climático não pode ser analisado somente pela quantidade de lavouras perdidas ou pela produtividade afetada.

Para o agronegócio brasileiro, o risco está presente em toda a cadeia. Uma ponte destruída pode interromper uma rota de transporte. Uma queda de energia pode comprometer sistemas de irrigação, ordenha, resfriamento, aviários e granjas. Uma enchente pode atingir armazéns e agroindústrias. Uma estiagem prolongada pode reduzir a disponibilidade de água e afetar decisões de plantio.

Nesse cenário, preparar a infraestrutura para condições climáticas mais severas passa a ser também uma estratégia para preservar a capacidade produtiva do campo.

Para o produtor rural, investimentos em prevenção podem significar menos interrupções, menor exposição a perdas logísticas e maior previsibilidade para planejar a produção. Para o País, a adaptação da infraestrutura será importante para preservar a competitividade de uma das principais atividades da economia brasileira.

Os R$ 455,5 bilhões em prejuízos provocados por eventos extremos ao longo de uma década reforçam a dimensão do desafio. Com a agropecuária cada vez mais integrada a cadeias logísticas extensas e dependentes de infraestrutura, a capacidade de resistir aos impactos do clima tende a se tornar um dos fatores centrais para a continuidade e o crescimento da produção rural brasileira.

Fonte: SouAgro

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