O mercado brasileiro de proteínas animais registrou em setembro uma mudança que chama atenção pela raridade. O preço médio do frango resfriado passou a superar o valor da carcaça especial suína no atacado, algo que não era observado desde junho de 2004. A inversão foi identificada na série histórica acompanhada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada em janeiro daquele ano.
A mudança ocorre em um momento de recuperação das cotações do frango, depois de meses de pressão no mercado. Desde o início de setembro, a proteína avícola vem encontrando sustentação em uma combinação de fatores que envolve maior procura no mercado brasileiro, ritmo favorável das exportações e uma disponibilidade mais ajustada no atacado.
No lado da carne suína, também houve valorização ao longo do mês. A diferença, porém, está na velocidade desse movimento. Enquanto o frango avançou de maneira mais intensa, a carcaça suína apresentou alta mais moderada, permitindo que a proteína avícola ultrapassasse o produto suíno na comparação de preços.
Uma inversão que não acontecia desde 2004
O principal destaque do movimento está no intervalo de tempo. A série histórica do Cepea mostra que o frango resfriado não havia superado a carcaça especial suína desde junho de 2004. São mais de 22 anos em que a relação entre as duas proteínas permaneceu em outro patamar.
Essa mudança não significa, necessariamente, que o frango tenha se tornado permanentemente mais valorizado que a carne suína. Os preços das proteínas animais mudam de acordo com as condições específicas de cada cadeia produtiva.
Oferta, custos de alimentação, ritmo de abates, exportações, estoques, demanda dos consumidores e desempenho da indústria são alguns dos fatores que podem alterar as cotações. Por isso, a inversão registrada em setembro representa, neste momento, uma fotografia das condições de mercado, e não uma garantia de que a nova relação será mantida nos próximos meses.
Ainda assim, o episódio tem importância para a avicultura e para a suinocultura justamente porque evidencia a rapidez com que as relações de preços podem mudar no agronegócio.
Demanda interna dá força ao frango
Um dos principais elementos por trás da recuperação do frango é o comportamento da demanda doméstica. Segundo informações acompanhadas pelo Cepea, o consumo ganhou força em setembro, contribuindo para melhorar o ritmo das vendas no mercado interno.
A procura por carne de frango costuma responder de maneira importante às condições de renda das famílias e aos preços relativos entre diferentes proteínas. Quando o consumidor encontra diferenças relevantes entre os produtos, pode alterar suas escolhas no supermercado, açougue ou outros canais de comercialização.
No caso atual, entretanto, a valorização do frango não está ligada apenas ao consumo brasileiro. O mercado externo também aparece entre os fatores de sustentação das cotações.
O desempenho das exportações ajuda a retirar parte da produção do mercado doméstico. Com uma parcela maior do produto sendo direcionada para outros países, a quantidade disponível internamente pode ficar mais ajustada, principalmente quando as vendas domésticas também apresentam recuperação.
Esse conjunto de fatores ajudou a mudar o ambiente de comercialização observado no início do segundo semestre.
Exportações ajudam a reduzir a disponibilidade interna
O Brasil possui uma das maiores cadeias de produção e exportação de carne de frango do mundo. Por isso, o comportamento dos embarques internacionais tem impacto direto sobre a formação de preços dentro do país.
Quando as exportações avançam em um momento de demanda interna firme, frigoríficos e demais agentes da cadeia passam a trabalhar com uma disponibilidade doméstica diferente daquela observada em períodos de maior oferta.
Foi justamente esse cenário de oferta mais ajustada que ajudou a dar sustentação ao frango resfriado em setembro, segundo o Cepea. O movimento ganhou intensidade depois de um período marcado por preços mais pressionados.
No início de setembro, o próprio Cepea apontava que os valores da carne de frango começavam a reagir após dois meses de quedas, com a recuperação associada ao aquecimento da demanda e ao bom ritmo das exportações.
Os dados mais recentes mostram a dimensão desse avanço. Em 24 de setembro, o frango resfriado era negociado a R$ 8,30 por quilo na referência do Cepea para o estado de São Paulo, acumulando alta de 13,85% no mês. Na mesma data, a carcaça especial suína estava em R$ 8,12 por quilo, com avanço de 11,08% em setembro.
A diferença é pequena em termos absolutos, mas suficiente para alterar uma relação que permanecia sem mudança há mais de duas décadas.
Carne suína também registra recuperação
Apesar de ter ficado abaixo do frango na comparação de setembro, a carne suína não passou por um período de estabilidade. A carcaça especial também apresentou valorização durante o mês.
Os dados do Cepea mostram que o preço chegou a R$ 8,12 por quilo em 24 de setembro, acumulando alta superior a 11% no mês. O avanço, contudo, ocorreu em ritmo inferior ao observado no frango resfriado.
A situação da suinocultura merece atenção porque o preço recebido pelo produtor não depende somente da cotação da carne no atacado. Os custos de produção, principalmente alimentação, têm papel decisivo na formação da rentabilidade da atividade.
Milho e farelo de soja representam parcela importante das despesas de uma granja. Dessa maneira, uma alta no preço do suíno vivo pode não resultar automaticamente em melhora significativa da margem do produtor se os principais insumos também estiverem encarecidos.
Essa diferença entre preço de venda e custo de produção é especialmente importante para analisar o momento da suinocultura brasileira.
Relação de preços muda, mas rentabilidade é outra questão
A ultrapassagem do frango sobre o suíno pode chamar atenção do consumidor e do mercado, mas não deve ser interpretada isoladamente como indicador de rentabilidade para os produtores.
As referências comparadas pelo Cepea representam diferentes etapas da cadeia. O preço do frango resfriado e o da carcaça especial suína são referências do mercado de carnes, enquanto o produtor rural trabalha com outras variáveis, como preço do animal vivo, custo de ração, sanidade, mão de obra, energia, transporte e estrutura.
Essa distinção é importante para compreender o que realmente está acontecendo dentro das propriedades.
Na suinocultura, por exemplo, o Cepea registrou em setembro uma recuperação dos preços do animal vivo em algumas regiões. Ainda assim, a evolução dos custos de alimentação continua sendo um fator relevante para o resultado econômico das granjas.
Portanto, a valorização observada no atacado precisa ser acompanhada juntamente com os indicadores de custo e de poder de compra do produtor.
Ovos seguem trajetória diferente
Enquanto frango e carne suína avançaram em setembro, o mercado de ovos apresentou comportamento diferente em determinados momentos do mês.
Segundo o acompanhamento do Cepea, a demanda por ovos perdeu força na segunda metade de setembro. Esse movimento costuma aparecer com maior frequência após o período de recebimento dos salários, quando o poder de compra de parte dos consumidores diminui e o ritmo das compras pode desacelerar.
Com vendas mais fracas, compradores passam a negociar com maior resistência, aumentando a pressão sobre os preços pagos aos produtores.
O cenário deixa evidente que as três principais proteínas acompanhadas no segmento podem responder de maneiras diferentes às mesmas condições econômicas. Enquanto o frango encontrou espaço para valorização, a carne suína avançou em ritmo diferente e os ovos enfrentaram pressão em determinados períodos.
O que pode acontecer daqui para frente
A manutenção dessa nova relação entre frango e carne suína dependerá principalmente do comportamento da oferta e da demanda nas próximas semanas.
Para o frango, será importante observar se o ritmo das vendas domésticas continuará forte e se as exportações permanecerão contribuindo para reduzir a disponibilidade interna. Caso a oferta se mantenha ajustada, o mercado poderá continuar encontrando suporte para as cotações.
Na suinocultura, a demanda por carne e o comportamento dos custos de produção serão determinantes. Uma recuperação mais consistente dos preços do suíno vivo poderá melhorar as condições para os produtores, desde que não seja acompanhada por uma elevação proporcional dos custos com ração.
Outro ponto de atenção será o comportamento do consumidor. As carnes de frango, suíno e bovina disputam espaço no orçamento das famílias e podem apresentar alterações de demanda conforme mudam os preços relativos entre elas.
Por isso, a inversão registrada em setembro deve ser observada como um importante sinal do mercado, mas não necessariamente como uma mudança permanente na hierarquia de preços das proteínas.
Mercado de proteínas vive momento de transformação
O fato de o frango resfriado superar a carcaça especial suína pela primeira vez desde junho de 2004 coloca setembro de 2026 entre os períodos mais incomuns da série histórica do Cepea.
A mudança foi construída por movimentos diferentes dentro das duas cadeias. O frango ganhou velocidade com demanda interna mais aquecida, exportações firmes e oferta doméstica mais ajustada. A carne suína também apresentou recuperação, mas em um ritmo menor.
Mais do que uma simples disputa entre preços, o episódio mostra como o mercado de proteínas animais reage à combinação de consumo, comércio exterior, disponibilidade e custos.
Para produtores, frigoríficos, comerciantes e consumidores, acompanhar essas variáveis será fundamental para entender se a inversão observada em setembro será apenas um movimento pontual ou o início de uma nova fase na relação entre as duas proteínas.
Por enquanto, os números mostram uma situação que não era registrada havia mais de duas décadas: no mercado atacadista paulista acompanhado pelo Cepea, o frango resfriado passou a valer mais que a carcaça especial suína.