O mercado brasileiro de café apresentou comportamentos diferentes entre os principais tipos do produto durante agosto. Enquanto o café arábica registrou valorização, impulsionado principalmente pela menor disponibilidade de grãos de melhor qualidade e pela preocupação com os estoques internacionais, o robusta encerrou o mês em queda, refletindo o avanço da oferta após o término da colheita no Espírito Santo.
A movimentação ocorreu em um período de forte volatilidade para o setor. Mesmo com a colheita brasileira da safra 2026/27 praticamente concluída, os preços do arábica encontraram sustentação diante de fatores relacionados à qualidade dos grãos, ao cenário internacional e às perspectivas climáticas para a próxima temporada.
Segundo dados da Agromensal do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o Indicador CEPEA/ESALQ do café arábica tipo 6, bebida dura para melhor, apresentou média de R$ 1.770,88 por saca de 60 quilos em agosto. O resultado representa uma alta real de 2,75% em comparação com a média registrada em julho.
O desempenho chama atenção porque ocorreu justamente quando a oferta brasileira começava a aumentar com o encerramento da colheita. Em condições normais, a entrada de maior volume de café no mercado tende a exercer pressão sobre as cotações. Neste caso, porém, fatores ligados à qualidade limitaram o impacto do aumento da disponibilidade sobre os preços.
Qualidade do café influencia mercado
As condições climáticas observadas durante parte do período de colheita tiveram papel importante na composição da oferta brasileira. De acordo com o Cepea, as chuvas intensas registradas em junho e julho nas principais regiões produtoras prejudicaram a qualidade de parte dos cafés colhidos.
A expectativa para a safra 2026/27 permanece relacionada a um volume recorde, mas quantidade não significa necessariamente maior disponibilidade de todos os padrões comerciais. O cenário observado em agosto mostrou justamente essa diferença.
Houve maior participação de cafés classificados como de bebida inferior e também de grãos com peneiras menores. Com isso, a oferta de lotes considerados de melhor qualidade ficou mais restrita.
Essa diferença entre volume total produzido e disponibilidade de cafés de qualidade ajuda a explicar a sustentação do mercado do arábica. Compradores interessados em determinados padrões de bebida precisaram lidar com uma oferta mais limitada, enquanto produtores e vendedores acompanharam de perto as condições das negociações.
O comportamento dos preços, portanto, não esteve ligado apenas ao tamanho da safra brasileira. A qualidade dos grãos disponíveis tornou-se um dos principais elementos para a formação das cotações.
Café arábica alcança maior valor desde abril
A volatilidade foi outra característica marcante do mercado de café em agosto. Ao longo do mês, as cotações oscilaram de maneira significativa, acompanhando tanto os fundamentos da oferta quanto os movimentos observados no mercado internacional.
No dia 24 de agosto, o Indicador CEPEA/ESALQ do café arábica chegou a R$ 1.826,58 por saca de 60 quilos. Foi o maior patamar registrado pelo indicador desde abril.
Na avaliação apresentada pelo Cepea, o avanço esteve associado, entre outros fatores, aos baixos estoques certificados na ICE Futures e ao aumento das posições compradas por fundos.
Os estoques certificados são acompanhados de perto pelos participantes do mercado internacional, especialmente porque ajudam a indicar a disponibilidade de café que pode ser utilizado para atender determinadas operações comerciais. Quando esses volumes permanecem baixos, o mercado tende a ficar mais sensível a notícias relacionadas à produção e ao abastecimento.
O cenário também se refletiu na Bolsa de Nova York, uma das principais referências internacionais para o café arábica. O contrato com vencimento em dezembro de 2026 chegou a 341,65 centavos de dólar por libra-peso no dia 24 de agosto.
Entretanto, a valorização não se sustentou até o final do mês. No último pregão de agosto, o mesmo contrato encerrou a 311,50 centavos de dólar por libra-peso.
A diferença entre os dois momentos mostra o grau de instabilidade observado no mercado. Em poucos dias, fatores relacionados à oferta, aos estoques e às expectativas dos agentes foram suficientes para provocar movimentos expressivos nas cotações.
Mercado começa a olhar para a safra 2027/28
Com a colheita da safra 2026/27 praticamente encerrada, o mercado começa a direcionar parte de sua atenção para o próximo ciclo produtivo.
As condições climáticas registradas no fim de agosto ganharam importância nesse contexto. As chuvas em regiões produtoras podem favorecer os tratos culturais realizados nos cafezais após a colheita e contribuir para o desenvolvimento das plantas.
A umidade também possui papel importante para a próxima florada, considerada uma das etapas mais relevantes do ciclo do café. É durante esse período que as condições das plantas podem influenciar o potencial produtivo da safra seguinte.
Apesar disso, o clima continua sendo uma das principais variáveis de risco para o café brasileiro.
Informações da NOAA e do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos apresentadas pela Agromensal apontaram aumento da probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade muito forte entre outubro e dezembro. A probabilidade indicada chegou a 95%.
Para os cafeicultores, a possibilidade de um fenômeno climático dessa intensidade exige atenção. Dependendo da evolução das condições meteorológicas e de seus efeitos sobre as regiões produtoras, o El Niño pode afetar o desenvolvimento das plantas e interferir no processo de floração.
Um dos pontos de preocupação está relacionado ao pegamento das flores. Caso as condições climáticas não sejam favoráveis, o potencial produtivo da safra 2027/28 pode ser comprometido.
Por isso, mesmo com a safra 2026/27 chegando ao fim, o comportamento do clima começa a ganhar espaço nas avaliações do mercado. A expectativa em torno da próxima produção poderá influenciar as decisões de produtores, compradores e demais agentes da cadeia.
Robusta segue caminho diferente
Enquanto o café arábica apresentou alta em agosto, o robusta percorreu uma trajetória diferente.
O Indicador CEPEA/ESALQ do robusta tipo 6, peneira 13 acima, a retirar no Espírito Santo, registrou média de R$ 1.065,16 por saca de 60 quilos no mês.
O valor representa uma queda real de 2,51% em relação à média de julho, quando o indicador havia registrado R$ 1.092,62 por saca.
Segundo o Cepea, o movimento de baixa esteve relacionado ao encerramento da colheita no Espírito Santo.
A conclusão dos trabalhos no campo contribuiu para a entrada da produção no mercado e alterou as condições de oferta. Com maior disponibilidade do produto, as cotações do robusta encontraram pressão ao longo do mês.
O comportamento reforça uma característica importante do mercado brasileiro: embora arábica e robusta façam parte da mesma cadeia produtiva, seus preços podem reagir de maneiras diferentes aos fatores de oferta e demanda.
Enquanto o arábica encontrou suporte na menor disponibilidade de cafés de melhor qualidade e nas condições dos estoques internacionais, o robusta sofreu influência mais direta do encerramento da colheita capixaba.
Oferta, qualidade e clima devem continuar no radar
Os números de agosto mostram um mercado de café dividido entre diferentes forças. De um lado, a oferta brasileira da safra 2026/27 aumentou com o avanço da colheita. De outro, problemas de qualidade reduziram a disponibilidade de determinados padrões de café, especialmente no arábica.
No mercado internacional, os estoques certificados reduzidos e a atuação dos fundos contribuíram para ampliar a volatilidade das cotações. A Bolsa de Nova York mostrou essa movimentação ao registrar forte alta no dia 24 e terminar o mês em patamar inferior.
Para os próximos meses, o clima deve ganhar ainda mais importância. Com a safra 2026/27 praticamente colhida, as atenções se voltam para as condições dos cafezais e para o desenvolvimento da safra 2027/28.
As chuvas do fim de agosto trouxeram condições favoráveis aos tratos culturais e à preparação das plantas para a florada. Ao mesmo tempo, a possibilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro mantém o setor atento às previsões meteorológicas.
Nesse cenário, o mercado de café entra em uma nova etapa de acompanhamento. Os preços do arábica continuam sensíveis à qualidade e aos estoques, enquanto o robusta passa a refletir as condições de oferta após o encerramento da colheita no Espírito Santo.
Para produtores e demais integrantes da cadeia do café, acompanhar simultaneamente preços, clima, qualidade e disponibilidade será fundamental para entender os próximos movimentos do mercado. A transição entre uma safra praticamente encerrada e a preparação da próxima tende a manter as cotações sujeitas a oscilações, principalmente diante das incertezas climáticas que podem marcar os próximos meses.
Fonte: AGROLINK