O mercado do boi gordo iniciou outubro com novas altas nas referências praticadas em São Paulo. A menor disponibilidade de animais terminados e a necessidade de alguns frigoríficos reforçarem suas compras no mercado spot contribuíram para elevar os preços da arroba. Ao mesmo tempo, o comércio exterior da carne bovina brasileira apresentou uma mudança importante na distribuição dos embarques, com os Estados Unidos mantendo a liderança entre os destinos em setembro.
Segundo informações divulgadas pelo informativo Tem Boi na Linha, o boi gordo e a vaca gorda tiveram valorização de R$ 2 por arroba. Para a novilha e o chamado boi China, a alta foi maior, de R$ 3 por arroba.
Também foram registrados negócios pontuais próximos de R$ 380 por arroba. No entanto, como essas operações ocorreram em volumes limitados, os valores ainda não foram suficientes para estabelecer uma nova referência geral para o mercado paulista.
Oferta restrita sustenta preço do boi gordo
A disponibilidade de bovinos para abate continua sendo um dos principais fatores de sustentação das cotações no mercado físico. Frigoríficos que haviam se antecipado nas compras conseguiram manter suas escalas, enquanto aqueles que precisaram retornar ao mercado spot encontraram maior dificuldade para adquirir lotes abaixo das referências vigentes.
Esse movimento ganhou força justamente em um momento de oferta mais enxuta de boiadas. Com menos animais disponíveis para negociação imediata, os pecuaristas passaram a ter maior poder de negociação em determinadas regiões.
As escalas de abate dos frigoríficos ficaram, em média, em seis dias. O número mostra que ainda existe programação para os próximos dias, mas também indica que a indústria precisa continuar buscando animais para manter o ritmo de suas operações.
A combinação entre oferta restrita e necessidade de reposição pode continuar influenciando o comportamento da arroba do boi gordo. Ainda assim, o mercado permanece atento à capacidade dos frigoríficos de repassar eventuais aumentos da matéria-prima para os preços da carne no atacado e no varejo.
Os negócios a R$ 380 por arroba chamaram atenção justamente por mostrarem que existem compradores dispostos a pagar mais em situações específicas. Porém, a ausência de volume significativo impede, neste momento, que esse preço seja considerado uma nova referência para todo o mercado.
Exportação de carne bovina recua em setembro
Enquanto o mercado interno registrou valorização da arroba, os embarques brasileiros de carne bovina in natura apresentaram queda expressiva em setembro na comparação anual.
O Brasil exportou 195,2 mil toneladas do produto durante o mês, considerando uma média diária de 9,3 mil toneladas. O resultado representou uma redução de aproximadamente 35% em relação ao volume registrado em setembro de 2025.
A diferença chama atenção porque ocorre em um cenário no qual a carne brasileira continua encontrando compradores importantes no mercado internacional. A queda no volume, portanto, não significa necessariamente uma redução proporcional da receita obtida pelas exportações.
O preço médio da tonelada exportada alcançou US$ 6,3 mil em setembro, alta de 11,9% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Na prática, o mercado apresentou uma combinação de menor quantidade embarcada e maior valor médio por tonelada. Esse comportamento ajuda a explicar por que a redução do volume não ocorre na mesma proporção sobre a receita das exportações.
Considerando os 21 dias úteis de setembro de 2026, foram embarcadas 119,4 mil toneladas a menos do que nos 22 dias úteis registrados em setembro do ano anterior. Na comparação com agosto, a média diária de embarques caiu 0,3%, enquanto o preço médio avançou 1,9%.
Estados Unidos assumem liderança entre os compradores
Uma das principais mudanças observadas no comércio exterior da carne bovina brasileira está relacionada aos destinos dos embarques.
Pelo segundo mês consecutivo, os Estados Unidos apareceram como principal destino da carne bovina in natura exportada pelo Brasil. A mudança ganhou força em agosto, quando os norte-americanos ultrapassaram a China na liderança das compras.
Em setembro, os Estados Unidos importaram 44,4 mil toneladas de carne bovina brasileira. Os embarques destinados ao país geraram receita de US$ 263,5 milhões.
O volume correspondeu a 22,8% de toda a carne bovina in natura exportada pelo Brasil durante o mês.
A participação norte-americana mostra a relevância que o mercado dos Estados Unidos passou a ter na composição dos embarques brasileiros. A mudança ocorre ao mesmo tempo em que as vendas para a China registram uma queda bastante acentuada em relação ao ano anterior.
China reduz participação nas compras
A China, tradicionalmente o principal mercado da carne bovina brasileira, recebeu 10,9 mil toneladas do produto em setembro de 2026. A receita alcançou US$ 68,3 milhões, representando 5,6% do total exportado pelo Brasil no mês.
A diferença em relação ao mesmo período de 2025 é expressiva.
Em setembro do ano passado, os chineses haviam comprado 187,2 mil toneladas de carne bovina in natura brasileira, movimentando aproximadamente US$ 1,05 bilhão.
Já em setembro de 2026, o volume enviado ao país asiático caiu 94,2% na comparação anual. A receita proveniente dessas vendas também apresentou forte retração, de 93,5%.
O resultado está relacionado a mudanças nas condições de acesso ao mercado chinês e à utilização da cota prevista para as importações de carne bovina brasileira.
No dia 29 de setembro, a China confirmou que o Brasil havia atingido 100% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pela salvaguarda. A partir do momento em que o limite é ultrapassado, o volume excedente passa a estar sujeito a uma tarifa adicional de 55%.
A medida altera as condições comerciais para os embarques que ultrapassam o limite estabelecido e ajuda a explicar parte da mudança observada no fluxo de carne bovina brasileira para o mercado chinês.
Cota dos Estados Unidos também influencia comércio
O mercado norte-americano também passou por uma alteração nas condições de importação durante setembro.
Uma cota temporária de 300 mil toneladas para aparas magras entrou em vigor nos Estados Unidos no dia 1º de setembro. O volume está sujeito a uma cobrança de US$ 44 por tonelada, substituindo a alíquota regular de 26,4%.
As condições estabelecidas para o mercado norte-americano ganham importância diante do aumento da participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de carne bovina.
Para os frigoríficos exportadores, as regras de acesso aos diferentes mercados passaram a ter peso ainda maior na definição dos destinos da produção. Questões como tarifas, cotas, preços internacionais, demanda e disponibilidade de matéria-prima influenciam diretamente a competitividade da carne brasileira.
China ainda lidera no acumulado do ano
Apesar da forte redução das compras chinesas em setembro, a China continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira quando considerado o acumulado de 2026.
Até o momento, o país asiático responde por 41,8% do volume total exportado pelo Brasil no ano. Os Estados Unidos aparecem na sequência, com participação de 13,5%.
Os números mostram que a mudança na liderança mensal dos embarques não significa que a China tenha perdido sua importância estrutural para a cadeia brasileira.
O mercado chinês permanece responsável por uma parcela significativa da demanda externa, mas a retração observada nos últimos meses aumenta a importância da diversificação dos destinos para os exportadores.
Ao mesmo tempo, o avanço dos Estados Unidos mostra como alterações nas condições comerciais de grandes compradores podem modificar rapidamente a distribuição dos embarques brasileiros.
Mercado interno acompanha cenário internacional
A valorização da arroba do boi gordo ocorre, portanto, em um momento de mudanças importantes para a cadeia da carne bovina.
De um lado, a oferta mais restrita de animais ajuda a sustentar os preços no mercado físico brasileiro. De outro, os frigoríficos enfrentam um cenário internacional em transformação, com queda expressiva dos embarques para a China e aumento da participação dos Estados Unidos.
Essa combinação torna o comportamento da arroba ainda mais dependente do equilíbrio entre oferta de gado, capacidade de compra dos frigoríficos e demanda pela carne brasileira dentro e fora do país.
Para o pecuarista, a menor disponibilidade de animais terminados pode favorecer as negociações no curto prazo. Para a indústria, porém, a necessidade de garantir matéria-prima ocorre em paralelo à necessidade de administrar custos e encontrar mercados capazes de absorver a produção.
Os próximos movimentos das exportações serão importantes para determinar se a mudança observada em setembro representa apenas uma alteração pontual ou se os Estados Unidos continuarão ampliando sua participação entre os principais destinos da carne bovina brasileira.
Enquanto isso, a oferta de boiadas segue no centro das atenções do mercado físico. Com escalas próximas de seis dias e frigoríficos recorrendo ao mercado spot para completar suas programações, a disponibilidade de animais deve continuar sendo um dos principais fatores acompanhados pelos agentes da pecuária.
A combinação entre preços da arroba, demanda doméstica, exportações e condições de acesso aos grandes mercados internacionais mantém o setor bovino em um período de ajustes. Para os próximos meses, o desempenho das vendas externas e o comportamento da oferta de gado serão fundamentais para definir os rumos do mercado de carne bovina no Brasil.