O setor leiteiro da Região Sul do Brasil vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Com um aumento expressivo da produção interna e a intensificação das importações de lácteos, produtores enfrentam queda na renda, perda de competitividade e temem o agravamento da crise no campo. Representantes de entidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná se reuniram em Florianópolis (SC) para pressionar o governo federal por medidas urgentes de apoio e regulação do mercado.
Segundo dados divulgados pelo Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat), o estado registrou um crescimento de 12% na produção de leite em 2025, um avanço significativo que, em condições normais, poderia representar maior oferta de matéria-prima e dinamização da cadeia produtiva. No entanto, o cenário nacional e internacional se desdobrou de forma desfavorável.
Santa Catarina e Paraná também apresentaram crescimento na produção, com uma média de 7% de expansão. Somados, os três estados respondem por uma parcela expressiva do leite brasileiro, e a elevação simultânea no volume ofertado gera uma pressão adicional sobre os preços, que já vinham em trajetória de queda ao longo dos últimos meses.
Essa superoferta interna, combinada ao aumento das importações de leite em pó, queijos e outros derivados, cria um desequilíbrio no mercado. Para os produtores, especialmente os de pequeno e médio porte, a situação se tornou crítica. Muitos têm relatado dificuldades para cobrir os custos de produção, que continuam elevados devido a despesas com insumos, energia, alimentação do rebanho e mão de obra.
Diante desse quadro, as lideranças do setor adotaram um tom de alerta. Em Florianópolis, representantes de sindicatos, cooperativas e entidades estaduais reforçaram a necessidade de uma política nacional de apoio ao segmento leiteiro, capaz de restabelecer a competitividade da produção nacional frente aos produtos importados.
O secretário-executivo do Sindilat/RS, Darlan Palharini, destacou a urgência de uma estratégia unificada:
“Temos que unificar o discurso e pedir para o governo adotar uma política de apoio ao segmento leiteiro. Seguimos lutando por isso”, afirmou durante o encontro.
Propostas para conter a crise
Entre as principais medidas defendidas pelo setor está a compra governamental de 100 mil toneladas de leite em pó, que seriam destinadas a programas sociais e ao abastecimento da rede pública de ensino. Essa ação teria dois efeitos imediatos: reduzir o excesso de produto no mercado interno e garantir renda mínima aos produtores em um momento de forte instabilidade.
A proposta visa principalmente proteger os produtores de menor porte, que são os mais vulneráveis às oscilações de preço. Em muitas regiões rurais, a atividade leiteira é uma das poucas fontes de renda contínua ao longo do ano, e sua perda pode comprometer a permanência de milhares de famílias no campo.
Outro ponto central é a revisão das licenças de importação de lácteos, que hoje operam em sistema automático. Esse mecanismo permite que as importações sejam liberadas rapidamente, sem uma análise prévia que considere o impacto no mercado interno. Entidades defendem a adoção de critérios mais rígidos ou mesmo de limites temporários para entrada de leite em pó e queijos, especialmente quando houver excesso de produção no país.
Para os representantes da cadeia produtiva, é essencial que o governo tenha instrumentos que permitam equilibrar a oferta interna e proteger os produtores brasileiros de uma concorrência considerada desleal, já que muitos países exportadores contam com subsídios robustos que reduzem artificialmente seus custos.
Articulação regional ganha força
A reunião em Florianópolis também contou com a participação de entidades do Mato Grosso do Sul, demonstrando que o problema não está restrito à Região Sul. O aumento das importações e a consequente pressão sobre os preços têm sido pautas recorrentes em fóruns agropecuários de todo o país.
Os representantes destacam que, sem uma ação coordenada do governo federal, o Brasil corre o risco de reduzir sua produção interna de leite a níveis preocupantes, tornando-se mais dependente do mercado externo. Além de fragilizar a economia rural, isso poderia comprometer a segurança alimentar e a competitividade da indústria nacional de laticínios.
Perspectivas para 2025
Com a aproximação do pico produtivo do ano e sem sinais claros de redução nas importações, o setor leiteiro segue em alerta máximo. Produtores e indústrias esperam que as demandas apresentadas ao governo avancem rapidamente, evitando o fechamento de propriedades e a saída de produtores da atividade.
A adoção de políticas públicas eficazes é vista como decisiva para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda, garantir a sustentabilidade da cadeia produtiva e preservar a competitividade do leite brasileiro no mercado doméstico.