O agronegócio de São Paulo voltou a demonstrar sua força no cenário econômico nacional ao registrar um superávit de US$ 4,49 bilhões no primeiro trimestre de 2026. O resultado, divulgado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, consolida o setor como um dos principais pilares da economia paulista, especialmente em um período marcado por instabilidades no comércio global e déficit na balança comercial geral do estado.
De acordo com o levantamento, o desempenho positivo foi impulsionado por exportações que somaram US$ 6,03 bilhões, enquanto as importações ficaram em US$ 1,54 bilhão. Com isso, o agro representou expressivos 38,5% das exportações totais paulistas, ao mesmo tempo em que respondeu por apenas 7,4% das importações. Esse contraste evidencia a relevância estratégica do setor, que segue sustentando a geração de divisas em meio a um cenário desafiador — no mesmo período, a balança comercial geral de São Paulo registrou déficit de US$ 5,24 bilhões.
China lidera demanda e reforça protagonismo internacional
No recorte dos destinos das exportações, a China manteve-se como principal parceira comercial do agro paulista, concentrando 23,6% das compras. Em seguida aparecem a União Europeia, com 15,8%, e os Estados Unidos, com 9,4%.
A forte presença chinesa reforça uma tendência consolidada nos últimos anos: o país asiático segue como o maior consumidor global de commodities agrícolas, impulsionando cadeias produtivas inteiras no Brasil. Mesmo diante de oscilações em determinados produtos, a demanda consistente garante estabilidade ao fluxo de exportações paulistas.
Complexo sucroalcooleiro lidera, mas cenário apresenta mudanças
Entre os segmentos exportadores, o complexo sucroalcooleiro foi o grande destaque, respondendo por 25,6% das vendas externas e movimentando cerca de US$ 1,5 bilhão no trimestre. Na sequência, aparecem os setores de carnes, produtos florestais, sucos e o complexo soja — todos com participação significativa na pauta exportadora.
O café, tradicional símbolo do agro brasileiro, ocupou a sexta posição, com 6,9% de participação e receitas de US$ 418 milhões. Apesar da relevância histórica, o produto enfrentou leve retração no período, refletindo tanto oscilações de preços quanto ajustes nos volumes embarcados.
Segundo especialistas, as variações observadas entre os setores são resultado direto de mudanças no mercado internacional, incluindo flutuações cambiais, oferta global e alterações na demanda de grandes importadores. Enquanto produtos florestais e carnes apresentaram crescimento, outros segmentos, como sucos, soja e o próprio complexo sucroalcooleiro, registraram queda em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Tensões no Oriente Médio impactam exportações
Outro ponto relevante destacado no relatório foi a redução das exportações para o Oriente Médio, especialmente no mês de março. As vendas para a região recuaram 17,5% na comparação anual, enquanto as exportações para o Irã caíram 8,5% no acumulado do trimestre.
De acordo com a análise, a retração está diretamente ligada às tensões geopolíticas na região, que afetam rotas comerciais, custos logísticos e a previsibilidade dos negócios. Ainda assim, os impactos foram considerados pontuais e não comprometeram o desempenho global do agronegócio paulista.
Mudança estratégica no mercado do açúcar
Um dos movimentos mais significativos observados no período foi a mudança no destino das exportações de açúcar. Segundo Carlos Nabil Ghobril, diretor da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), houve uma reconfiguração importante no mercado comprador.
De acordo com o especialista, a China, que anteriormente liderava as importações do produto, perdeu protagonismo neste início de ano e sequer figura entre os cinco principais destinos. Em contrapartida, a Índia assumiu a liderança como principal importadora do açúcar paulista.
Essa mudança chama atenção, sobretudo porque a Índia também é uma das maiores produtoras globais do produto, competindo diretamente com o Brasil em diversos mercados. O aumento das importações indianas pode estar relacionado a questões climáticas, políticas internas de abastecimento ou oscilações na produção local.
Para analistas do setor, esse reposicionamento evidencia a capacidade de adaptação do agro paulista, que consegue redirecionar suas exportações conforme as oportunidades e demandas do mercado internacional.
São Paulo mantém posição de destaque no cenário nacional
No ranking nacional, São Paulo ocupa a segunda posição entre os maiores exportadores do agronegócio, com participação de 15,8%. O estado fica atrás apenas de Mato Grosso, que lidera com 20,9%.
O desempenho paulista reforça sua importância não apenas pela escala produtiva, mas também pela diversificação da pauta exportadora. Diferentemente de estados altamente concentrados em commodities específicas, São Paulo apresenta um portfólio mais amplo, que inclui desde açúcar e etanol até carnes, sucos e produtos florestais.
A análise da balança comercial foi elaborada por pesquisadores do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), que destacam a resiliência do setor diante de um cenário internacional complexo.
Perspectivas para o restante de 2026
Apesar das oscilações pontuais e dos desafios geopolíticos, as perspectivas para o agronegócio paulista ao longo de 2026 seguem positivas. A demanda global por alimentos e biocombustíveis continua aquecida, enquanto o Brasil mantém vantagens competitivas importantes, como clima favorável, tecnologia e capacidade produtiva.
Além disso, a diversificação de mercados e a busca por novos parceiros comerciais tendem a reduzir a dependência de regiões específicas, aumentando a segurança das exportações. A expansão de acordos comerciais e investimentos em logística também devem contribuir para melhorar ainda mais a competitividade do setor.
Com um início de ano robusto e indicadores sólidos, o agro paulista reafirma seu papel estratégico não apenas para a economia estadual, mas para todo o Brasil. Em um cenário global marcado por incertezas, o setor segue como um dos principais motores de crescimento, geração de empregos e entrada de divisas no país.