O mercado do boi gordo iniciou 2026 com força renovada e com um protagonista claro: o pecuarista brasileiro. Em fevereiro/26, as cotações da arroba registraram alta superior a 7% na praça paulista, tanto para o boi gordo sem padrão-exportação quanto para o chamado “boi-China”, reforçando a percepção de que o produtor segue ditando o ritmo dos negócios na cadeia da carne bovina.
De acordo com o zootecnista Felipe Fabbri, analista da Scot Consultoria, o cenário de curto prazo permanece favorável ao vendedor. “O mercado está comprador e deverá seguir assim em curto prazo, principalmente com a virada de mês dando estímulo à demanda doméstica, com a retomada do poder de compra do brasileiro a partir do recebimento dos salários”, avalia.
Alta da arroba do boi gordo em fevereiro/26
Em São Paulo, principal referência do mercado físico, o boi gordo encerrou fevereiro/26 negociado entre R$ 350/@ e R$ 355/@ — patamar observado pela última vez em novembro de 2024, período marcado por forte demanda e oferta mais restrita de animais terminados.
Segundo levantamento da Agrifatto, no dia 27/2 a arroba paulista permaneceu cotada a R$ 355/@. Já os dados apurados pela Scot Consultoria indicaram R$ 350/@ para o boi gordo comum e R$ 355/@ para o “boi-China”, valores brutos e a prazo.
Fabbri destaca que fevereiro foi o mês de maior variação nominal frente a janeiro desde 1999, com alta média de 6,5% em São Paulo. No acumulado do mês, a Scot contabilizou valorização de 7,4% para o boi gordo, 7,6% para o boi-China e para a vaca gorda, além de 6,3% para a novilha.
O movimento reforça a tendência de firmeza nos preços do boi gordo em 2026, sustentada por oferta mais enxuta e demanda aquecida tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Exportação de carne bovina bate recorde
Um dos principais pilares de sustentação das cotações é o desempenho das exportações de carne bovina in natura. Dados parciais até a terceira semana de fevereiro/26 apontam embarques de 192,7 mil toneladas, superando as 190,4 mil toneladas registradas no melhor mês de 2025 até então.
O ritmo forte dos embarques indica recorde mensal e reforça o protagonismo do Brasil no comércio global de proteína bovina. Em um cenário internacional de oferta mais restrita de carne, a demanda pela carne brasileira tende a permanecer aquecida ao longo do ano.
Fabbri observa que, apesar da cota chinesa imposta no início do ano, o impacto imediato foi o aumento da procura no mercado interno. A China segue como principal destino da carne bovina brasileira, mas o setor também monitora possíveis avanços comerciais com Japão e Coreia do Sul, dois dos cinco maiores importadores globais da proteína e reconhecidos por pagarem prêmios atrativos.
A eventual abertura desses mercados pode representar um divisor de águas para a exportação de carne bovina brasileira em 2026, ampliando margens e fortalecendo ainda mais o poder de barganha do pecuarista.
Oferta menor e recuo nos abates
Se do lado da demanda o cenário é robusto, na oferta o quadro é de retração. O ritmo de abates de bovinos sob o Sistema de Inspeção Federal recuou 11,3% em janeiro/26 na comparação anual.
Na parcial de fevereiro, até o dia 25, foram abatidas cerca de 1,6 milhão de cabeças, volume 31,7% inferior ao registrado em fevereiro de 2025. Embora ainda haja dados a consolidar, a tendência indica menor disponibilidade de animais terminados.
Um dos fatores que explicam esse movimento é a valorização do bezerro, que atingiu máxima histórica segundo indicador do Cepea/Esalq. Com o bezerro mais caro, o pecuarista tende a reter fêmeas para reposição, reduzindo a participação de vacas nos abates — fenômeno típico de fases de retenção no ciclo pecuário.
Essa estratégia diminui a oferta imediata de carne no mercado e contribui para sustentar as cotações da arroba do boi gordo.
Pasto favorece retenção e poder de barganha
Outro elemento determinante para o atual momento do mercado do boi gordo é o clima. As chuvas regulares no Centro-Norte do País garantem boa condição das pastagens, reduzindo a necessidade de venda imediata por parte do produtor.
Com pasto de qualidade, o pecuarista consegue alongar a permanência do animal na fazenda, negociar em lotes menores e fracionar as vendas ao longo do mês. Essa flexibilidade amplia o poder de barganha e dificulta a formação de escalas longas por parte dos frigoríficos.
Segundo a Agrifatto, as escalas de abate seguem curtas, variando entre quatro e cinco dias na média nacional. O volume negociado não tem sido suficiente para esticar essas programações, o que mantém a indústria em posição mais cautelosa nas compras e sustenta a firmeza nos preços.
Giro pelas principais praças pecuárias
No último dia útil de fevereiro (27/2), das 17 praças monitoradas pela Agrifatto, sete registraram valorização nas cotações da arroba: Acre, Alagoas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Nas demais praças, incluindo São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraná, Rondônia, Santa Catarina e Tocantins — as cotações permaneceram estáveis.
O comportamento regional confirma que o mercado físico do boi gordo segue sustentado, com ajustes pontuais de alta onde a oferta está ainda mais restrita.
Perspectivas para o mercado do boi gordo em 2026
A combinação de oferta controlada, exportações em ritmo recorde, escalas curtas e demanda interna reativada pela virada de mês aponta para manutenção do viés altista no curto prazo.
O pecuarista, ao que tudo indica, continuará como protagonista das negociações, definindo o ritmo de comercialização e sustentando as cotações da arroba. Enquanto o cenário internacional permanecer favorável e o clima colaborar com boas condições de pasto, a tendência é de mercado firme.
Para a cadeia da carne bovina, o desafio será equilibrar preços remuneradores ao produtor com competitividade no varejo e no mercado externo. Já para o pecuarista, o momento exige estratégia: aproveitar as janelas de valorização, gerir o fluxo de caixa e acompanhar atentamente os movimentos da demanda global.
Em fevereiro/26, o recado foi claro: o boi gordo segue soberano, e quem dita o compasso do mercado é o homem do campo.